terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

II'

o inverno era lá fora. entre nós fazia-se o calor das palavras. chegaste bem, era isso. é mais do que isso na verdade, quero adormecer a sorrir contigo e ir perdendo as horas a pouco e pouco enquanto te oiço. de inutilidades, de coisas, quotidianas talvez, eu não sei, e cantaste, do tempo também. de como saber as horas de uma relação, relógios, o pulso, medo, não. sim, no fundo absolutamente nada no mundo mais tentador do que negar a palavra certa para dizer eu gosto, de ti. estava sentada, ao teu colo, tenho disso a certeza embora estivesse deitada entre os lençóis, estás presente. a estranheza do teu lugar na minha vida, gosto. eu gosto, de ti. não gostei se não do amor que foram tendo por mim. de ti eu gosto. deixei arrumado, engomado, o coração numa gaveta branca a cheirar a lírios. leva-me a essa primavera, quero falar-te de mim. preciso de te contar uma história, cátia. sim. eu leio bem a tua voz. desenhas estradas no meu corpo e eu não soube sempre, é a verdade, percorrer. o frio pela primeira vez, o inverno era lá fora. entre nós neva, entre nós neva agora. eu nunca tinha visto neve, nem os dedos roxos, a boca presa à última sensação de calor e todas as frases geladas. fecho as mãos, o amor entre elas, não soube. recuso apenas a dizer o que pode ser dito. da noite, os cantos longínquos dos voos nocturnos e sobretudo a tua história. soubesse eu dizer-te a temperatura da minha pele quando vi pela primeira vez neve tua, foi difícil para mim. de mim ainda não viste neve, eu sei. uma palavra minha, queria eu restituir a imensidão tua. não soube dizer, pela primeira vez eu não soube. dizer, junto ao coração eu colho os lírios, para te entregar.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

rain's falling.


A: é engraçado. as janelas.
B: engraçado?
A: vemos o mundo, mas também nos vemos.
B: a algumas horas.
A: não suportaria ver-me o dia todo,
B: um dia hás-de reparar em ti.
A: olha,
B: a chuva, lá fora. já vi.
A: para dentro.
B: não.
A: é como se chovesse e fizesse frio.
B: vais fazer um chá?
A: vou buscar um casaco para o meu coração.
B: não vás, eu amo-te.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

I'

quando chorar eu quero que as minhas lágrimas desafiem as leis da gravidade e que o meu coração,
quando crescer eu quero ter um coração. mãe, quantos cabem no meu corpo?
se eu pudesse eu tinha vários corações.
se eu pudesse eu tinha o teu coração.
e os nossos eram vizinhos de temperatura, de calor.
eu quero saber a cor do teu sorriso quotidiano e do de fim-de-semana.eu tenho vários sorrisos, por dentro e por fora.
eu tenho vários sonhos.
eu sou várias pessoas, nunca te disse que o meu nome...
nunca te disse o meu nome.
ainda assim eu oiço quando me chamas porque o teu ar tem a textura dos meus dedos.
e eu tenho a tua voz entre ambas ternamente, guardo como tu peter quando perdeste a sombra alguém ta guardou ,coso-a aos teus lábios como alguém peter ta coseu aos pés. e espero como a wendy nunca chegou a esperar eu espero que me digas nunca espero que respires e que eu te sinta a voz a tocar-me os lábios.
as palavras não as quero.
se um dia me deres nome, entrega-mo num envelope que saiba à tua saliva para que eu possa sempre beijar-te as letras.
quando frio fizer lá fora hei-de cobrir as tuas letras com lãs de inverno e esconder-te poemas entre os novelos.
não te preocupes com a felicidade. todas as manhãs,
como se fosse um fenómeno meteorológico expectável, todas as manhãs a felicidade acontece nas canecas de chá embaciado nos teus óculos.
deixa-me desenhar um coração e não digas nada, não digas nada. não é preciso nenhum som para me levar um beijo à tua boca.
fechamos os olhos.
eu abro às vezes, os meus porque gosto de te ver pensar em mim com a luz apagada.
olha, eu quando estou feliz choro para cima.

eu quando estou feliz rio-me. e tu?

recomeçamos: quando eu estou feliz e tu - rio-me. quando eu e tu fechamos a porta do carro e viajamos e não sabemos nunca se chegamos se partiremos de novo se a voltaremos a fechar, e não sabemos. não sabemos quando.

somos felizes

por isso: porque ainda não trancámos nunca as portas.

meu amor