domingo, 24 de janeiro de 2010

o amor é um lugar estranho

A: quero ter sempre urgência de ti, urgência em ver-te chegar.
B: sei quando gosto de alguém ao fechar os olhos.
A: eu sei o sabor dos teus passos, a inclinação exacta da cabeça sobre o chão, o olhar curvilíneo. gosto de reparar em ti, sabias? de me demorar nos teus sinais e de imaginar histórias para todas as tuas cicatrizes.
B: estás maquilhada?
A: sim, os olhos.
B: posso olhar para ti até te cansares.
A: não me vou cansar.
B: até ao Sol se pôr, então.
A: vou olhar para ti até a lua nascer.
B: se for lua nova?
A: é como se fosse para sempre.

interlúdio primeiro,

começa na ponta dos dedos, como se fosse tecer em ti uma história,
ao som das teclas, das letras dactilografadas com carinho e necessidade de ti.
paremos esta máquina e já agora os relógios e os calendários.
quero tempo para. interrompe-me, preciso. que me assaltes uma vírgula, que me roubes a respiração porque eu me cansei das frases feitas e não tenho a criatividade necessária ou a coragem para te dizer o vulgar e quotidiano gosto de ti como gosto de romances. como se fosses tão pouco de mim como as histórias. quero histórias contigo, embora as contes bem e eu goste de as ouvir na verdade preferia ter histórias contigo. sermos partes das mesmas frases do meu gravador.
dós carnes paralelas. dois corações em equilibrio. duas mãos dadas. falarmos tantas línguas e em nenhuma delas saber dizer que gosto de ti como preciso do silêncio entre nós. que me cansei de te dizer bom dia, boa tarde. de te mandar beijinhos e de falar de arte quando na verdade nada disso é matéria do meu discurso interior. o amor é um lugar estranho. é a zona exacta tua em que os meus olhos pousam devagar. não repares em mim que coro. abraça-me, quero o teu cheiro. como se fosse uma aura em mim e eu a quisesse quisesse com força e, céus, que haja palavras neste mundo. e que elas nos unam com mestria, que eu preciso desesperamente de te fazer uma declaração importante. como nos impostos se faz de rendimentos. eu preciso de declarar por ti o meu amor. que no, que no. dancemos, preciso de te saber a peça certa para o meu 2010 completo. ou a errada. eu sei lá. tenho saudades de ter futuros contigo. os meus dedos roxos, como se me tirasses o sangue em cada recordação. trago a tua voz dentro da minha roupa e o cheiro entre os cabelos. deixei contigo os meus olhos. não mos devolvas, meu amor, para que tenha eu sempre urgência em estar contigo. nem os dedos na tua memória, que havemos de ter uma história por escrever.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

ligo-te logo, quando sair

às vezes acontece-me reparar que amanhece cedo, em demasia, dizes tu e as janelas da manhã são ainda húmidas. e hás-de ter os teus motivos, eu não digo que não. mas lamento discordar tão profundamente de ti. quando um dia escrever para ti uma carta hei-de dizer-te que amanhece à hora certa, tal como anoitece à hora certa e da mesma forma como entardece à hora exacta. hei-de arranjar uma forma bonita de te contar que a certeza está em ti e não no tempo. mas agora não posso, que tenho medo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

há gramática em gostar

A:
primeiro queria dizer-te que gosto de ti,
depois queria esquecer-me.
primeiro queria dizer-te que gosto,
de ti depois queria esquecer-me.
primeiro queria dizer,
depois queria esquecer.
te.
me.

B:
os pronomes são palavras perigosas, já pensaste?

A:
gosto de ti.

B:
não gostes de mim, gosta de quem sou.

A:
gosto do teu nome.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

break(it)fast

atom heart mother

preciso da queda livre dos teus braços
ou do salto sozinha para o teu mundo
do abismo das viagens permanentes entre
os teus dias, sim e os ,não.
quero também a distância difícil entre
os nossos sorrisos.

a estranheza do teu lugar na minha vida,
a indefinição dos dias contigo.