quarta-feira, 28 de abril de 2010

tê zero

quero só ser a tua casa, embora tenha às vezes ainda medo que percas essa chave.
embora os teus corredores sejam ainda labirintos meus e a minha cave tenha sempre demasiado pó. podes espirrar se eu falar de amor. guardo-o na cave, não visito muitas vezes porque desde miúda tenho medo de caves. o amor é um monstro e é só por isso que eu tenho medo de estar contigo às escuras. ainda somos de cristal, ainda temos medo, ainda somos de cristal. eu preciso de te tactear às escuras, eu preciso preciso que te falte a luz.

sábado, 24 de abril de 2010

Versão provisória de um primeiro discurso libertador acerca da liberdade

Houvesse dias do calendário ou de vidas que pudéssemos escolher habitar, transitória ou eternamente, e eu escolheria morar, um só minuto, dentro do caule de um cravo, antes pela poesia, não pela revolução.
O 25 de Abril é, em mim, sobretudo uma miragem poética, um lugar que se foi fazendo vazio até nas memórias. Um tiro seco de uma espingarda sem balas, que de tão pouco ferir, fez vermelha apenas a cor dos cravos. Um dia reproduzido nos manuais das histórias, nos eternos iguais colóquios que brotam um pouco por todo o país, nas flores nascidas nas algibeiras dos homens que entretanto aprenderam a vestir fatos, no encolher de ombros quotidiano e no roncar das consciências adormecidas.
Hoje, o 25 de Abril é um dia. Carinhosa ou caridosamente doado àqueles que continuam a viver numa utópica primavera sempre florida. Um dia doado a esses. Um dia, por isso mesmo, especial. O 25 de Abril é também um lugar social que se fez feriado e sobre o qual se constroem pontes que nos levam a tantos outros países, pontes que nos levam, afinal, para longe de quem somos.
Resta, por isso, do sonho dos capitães de Abril esta vontade de comemorar apenas a data. Resta também um estar político que, regendo ainda a nossa sociedade, temos todos vindo a desvirtuar, a pouco e pouco.
Porque a liberdade não se escreve só nas leis, nem nos jornais, muito menos nos dicionários ou nos manuais de Filosofia. A liberdade ultrapassa as metáforas e a literatura, invade o quotidiano de gente como nós: consciente de que a sociedade é esta galáxia, onde as pessoas se atraem, por serem feitas de matéria semelhante, moldada de uma forma sempre tão diferente. Nesta nossa galáxia, também os corpos gritam por espaços entre eles, porque é pela compreensão da distância que nos mantemos vivos. Nesta nossa galáxia, os dias são trezentos e sessenta e cinco, às vezes seis, e eu não hesito em considerar que da madrugada de todos eles deveria invariavelmente nascer a Liberdade.
Mais do que um regime político democrático, que dá ou pretende dar, lugar às liberdades de cada um, mais do que o revivalismo precário, às vezes quase patético, mais do que um mero feriado nacional, mais do que uma data nas cronologias de história, mais do que uma entrada nas enciclopédias, mais do que uma imagem idílica, mais do que um lugar na memória.
O 25 de Abril pede-nos uma homenagem que não é escrita, que não é falada, que não é cantada, nem dramatizada, nem debatida. O 25 de Abril exige-nos a responsabilidade de habitar este Mundo por vontade e com consciência absoluta da sociedade que partilhamos. O 25 de Abril pede praticabilidade quotidiana, pede exercício activo da cidadania, pede respeito incontestável pelas pessoas, pede consciência de quem somos e das nossas acções, pede ponderação. O 25 de Abril pede, fundamentalmente, uma capacidade democrática avassaladora de todos e de cada um, que se faça sentir até em silêncio e um sentido profundo de liberdade colectiva, que germine nas ruas e não na História.
Este dia não é uma data, este dia é um povo que, hoje, finalmente, voltará a escrever a vermelho.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

i'm sure.


we
'll share a wonderful world.

A ti, peter

Um desejo súbito, somente um desejo súbito e inesperado de vincar os pés nas ruas onde os nossos passos se desfazem. Um desejo súbito de encontrar o caminho tropeçando em frente, como se nos fundíssemos com as trajectórias imaginárias que um dia a Sininho deu à Wendy e aos seus irmãos sem nome.
É afinal uma vontade, uma só vontade repentina de te escrever cartas, Peter, de te desenhar mapas dos lugares possíveis em mim e de colar recados meus no nosso frigorífico infantil. Os recados, achei eu um dia ao amanhecer que eram como erupções das manhãs descontentes em que inexplicavelmente acordámos dessincronizados. Talvez até longe dos voos nocturnos. O sentido íntimo das coisas é apenas nocturno, o sentido íntimo são os voos negros dos corvos pousados sobre o pesadelo da tua ausência pontual. Trazes-me sonhos na algibeira, sonhos como o calor entre as asas cruas, tão negras, tragicamente tão macias e pousadas sobre o parapeito da minha janela.
Gostava que fosses a janela do meu quarto. De aprender de ti o mundo lá fora e de às vezes seres quase o meu espelho. Gostava que fosses o meu casulo. De poder chamar-te casa, porque não sei o teu nome de verdade nem o quero aprender. Quando me deres finalmente a mão eu vou calçar-te ténis azuis, Peter, como faria azul o chão do meu quarto e os dias do meu calendário. E vou desejar secretamente que tenhas sempre sonhos nas tuas raízes e que partilhemos eternamente esse lugar da Terra onde talvez cresças ou talvez tenhas sabido não crescer, um dia.

sábado, 3 de abril de 2010

Cinematografia I

A: Não quero desaparecer por detrás de ti.

B: Se estiveres a desaparecer por detrás de mim eu fico transparente. Vou querer sempre que as pessoas te vejam e nunca como parte de mim. Eu gosto de ti, de quem és.

A: Nunca mo soubeste dizer.

B: Hoje digo, não assino.

A: Nunca mo soubeste dizer, porquê?

B: Porque tenho medo.

A: Nunca, porquê?

B: Medo.

(A e B talvez se beijem)