segunda-feira, 19 de abril de 2010

A ti, peter

Um desejo súbito, somente um desejo súbito e inesperado de vincar os pés nas ruas onde os nossos passos se desfazem. Um desejo súbito de encontrar o caminho tropeçando em frente, como se nos fundíssemos com as trajectórias imaginárias que um dia a Sininho deu à Wendy e aos seus irmãos sem nome.
É afinal uma vontade, uma só vontade repentina de te escrever cartas, Peter, de te desenhar mapas dos lugares possíveis em mim e de colar recados meus no nosso frigorífico infantil. Os recados, achei eu um dia ao amanhecer que eram como erupções das manhãs descontentes em que inexplicavelmente acordámos dessincronizados. Talvez até longe dos voos nocturnos. O sentido íntimo das coisas é apenas nocturno, o sentido íntimo são os voos negros dos corvos pousados sobre o pesadelo da tua ausência pontual. Trazes-me sonhos na algibeira, sonhos como o calor entre as asas cruas, tão negras, tragicamente tão macias e pousadas sobre o parapeito da minha janela.
Gostava que fosses a janela do meu quarto. De aprender de ti o mundo lá fora e de às vezes seres quase o meu espelho. Gostava que fosses o meu casulo. De poder chamar-te casa, porque não sei o teu nome de verdade nem o quero aprender. Quando me deres finalmente a mão eu vou calçar-te ténis azuis, Peter, como faria azul o chão do meu quarto e os dias do meu calendário. E vou desejar secretamente que tenhas sempre sonhos nas tuas raízes e que partilhemos eternamente esse lugar da Terra onde talvez cresças ou talvez tenhas sabido não crescer, um dia.

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