Houvesse dias do calendário ou de vidas que pudéssemos escolher habitar, transitória ou eternamente, e eu escolheria morar, um só minuto, dentro do caule de um cravo, antes pela poesia, não pela revolução.
O 25 de Abril é, em mim, sobretudo uma miragem poética, um lugar que se foi fazendo vazio até nas memórias. Um tiro seco de uma espingarda sem balas, que de tão pouco ferir, fez vermelha apenas a cor dos cravos. Um dia reproduzido nos manuais das histórias, nos eternos iguais colóquios que brotam um pouco por todo o país, nas flores nascidas nas algibeiras dos homens que entretanto aprenderam a vestir fatos, no encolher de ombros quotidiano e no roncar das consciências adormecidas.
Hoje, o 25 de Abril é um dia. Carinhosa ou caridosamente doado àqueles que continuam a viver numa utópica primavera sempre florida. Um dia doado a esses. Um dia, por isso mesmo, especial. O 25 de Abril é também um lugar social que se fez feriado e sobre o qual se constroem pontes que nos levam a tantos outros países, pontes que nos levam, afinal, para longe de quem somos.
Resta, por isso, do sonho dos capitães de Abril esta vontade de comemorar apenas a data. Resta também um estar político que, regendo ainda a nossa sociedade, temos todos vindo a desvirtuar, a pouco e pouco.
Porque a liberdade não se escreve só nas leis, nem nos jornais, muito menos nos dicionários ou nos manuais de Filosofia. A liberdade ultrapassa as metáforas e a literatura, invade o quotidiano de gente como nós: consciente de que a sociedade é esta galáxia, onde as pessoas se atraem, por serem feitas de matéria semelhante, moldada de uma forma sempre tão diferente. Nesta nossa galáxia, também os corpos gritam por espaços entre eles, porque é pela compreensão da distância que nos mantemos vivos. Nesta nossa galáxia, os dias são trezentos e sessenta e cinco, às vezes seis, e eu não hesito em considerar que da madrugada de todos eles deveria invariavelmente nascer a Liberdade.
Mais do que um regime político democrático, que dá ou pretende dar, lugar às liberdades de cada um, mais do que o revivalismo precário, às vezes quase patético, mais do que um mero feriado nacional, mais do que uma data nas cronologias de história, mais do que uma entrada nas enciclopédias, mais do que uma imagem idílica, mais do que um lugar na memória.
O 25 de Abril pede-nos uma homenagem que não é escrita, que não é falada, que não é cantada, nem dramatizada, nem debatida. O 25 de Abril exige-nos a responsabilidade de habitar este Mundo por vontade e com consciência absoluta da sociedade que partilhamos. O 25 de Abril pede praticabilidade quotidiana, pede exercício activo da cidadania, pede respeito incontestável pelas pessoas, pede consciência de quem somos e das nossas acções, pede ponderação. O 25 de Abril pede, fundamentalmente, uma capacidade democrática avassaladora de todos e de cada um, que se faça sentir até em silêncio e um sentido profundo de liberdade colectiva, que germine nas ruas e não na História.
Este dia não é uma data, este dia é um povo que, hoje, finalmente, voltará a escrever a vermelho.
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