domingo, 29 de novembro de 2009

Claves de Sol

- Difícil, dançarmos ao mesmo tempo. Arranjarmos isso que é o ritmo, o nosso ritmo.
- O coração, o teu o meu. Os pés, entre os pés. Passos curtos e longos.
- É como na vida, quase metáfora.
- Engraçado isto de entrar no tempo, talvez fora até.
- Entrares no meu tempo, eu no teu. No tempo.

- Quando pisas alguém, pedes desculpa?
- Quando chove, os sapatos escorregam.
- É natural pisarmo-nos ao princípio.
- Compassos diferentes..
- Não sei.
- Às vezes não conhecemos as músicas.
- Ensinas-me a ler pautas? Preciso de saber o dó em ti.
- Preciso de me afinar, como aos pianos.

domingo, 22 de novembro de 2009

a dificuldade do verbo

de mim a ti, os corpos, o suor o sangue, o amor entre os dedos, a paixão dos sexos ou do sexo. existirmos como pontes entre nós e sermos este amor que nos une e que me faz perder-me nos sentidos, perder-me dos sentidos,
perder-me como se fosses uma cidade e fazer das tuas veias as ruas do meu sangue, e percorrer-te as estradas com a ponta da língua e desenhar-te mapas e caminhos e atalhos até estar cansada de te percorrer o corpo numa só respiração. encostar o meu ar à tua pele, encostar o meu ar ao teu corpo e ter os meus dedos gelados entre os teus. deixar pegadas na tua pele, deixar pegadas no teu corpo e ter as minhas pestanas entre as tuas. e o meu sorriso entre os teus sonhos e o meu sono entre os teus braços e o teu corpo dentro do meu e o meu coração dentro do teu e a minha vida no teu calendário e o teu chocolate na minha boca e o teu gelado no meu nariz e talvez quem sabe a tua mensagem no meu telemóvel a dizer “bom dia, amo-te”. e os natais juntos, o mesmo pinheiro, a mesma lareira, a minha botinha para ti, a tua para mim, talvez família, não sei, tenho medo. amanhã há-de ser de manhã, mesmo que não seja lá fora, amanhã há-de amanhecer dentro de nós ou em nós, tanto faz é indiferente – tudo é indiferente quando amanhecemos assim. assim como se tivéssemos sido feitos para acordar um no outro. para veres nascer o sol em mim e eu a noite em ti. não sei se tenho medo.
afinal, não tenho medo.
é amor.

espelhos

1,77. Pele, alguns ossos.
Bons, outros estragados.

Há já quase vinte anos que habito esta casa onde as paredes há muito deixaram de ser brancas.

1,77. Pele curiosamente branca.
Borbulhas, cicatrizes, arranhões e uma costura que é um sorriso. Outro na cara, quase tatuado.
Pêlos. Poros. Pele. Peles.
Pronto, medidas eu não sei porque é raro ver-me
ou apreciar-me, era mais correcto;
ou reparar em mim;
ou olhar para mim.
É raro – ao espelho.
Reparo nos defeitos
e nos defeitos
e nos defeitos
e nas imperfeições
e nas imprecisões
e queria muito achar-me bonita,
embora isso não seja, eu sei, importante mas é.
Dizer bom dia, Cátia.
Bom dia, Cátia!
Com ponto de exclamação porque me acho bonita.
Assim digo
Olá
para não gastar muitas letras.
Ninguém gasta letras com gente feia.
Falta-me a coragem de reparar em mim com a ternura de olhar os rios a anoitecerem entre dois mares. De reparar nos sinais, de conhecer os músculos e os espaços entre os dedos, onde o ar da manhã faz cócegas.

Há já mais de dezanove anos que adormeço neste corpo que ao final dos dias me cansa e ao amanhecer me é eternamente novo. Irremediavelmente novo.

Tropeço em mim.
Esqueço os olhos entre os cabelos.
A boca à frente das palavras,
e a língua a saber-me à poesia dos
Invernos à lareira que não tenho.

Há exactamente 19 anos e 5 meses e 20 dias que ocupo este mesmo lugar no mundo e, se ma pedirem, ainda não sei dizer a minha morada.

Se o meu corpo fosse teu,
se o meu corpo fosses tu
se o meu corpo fosse meu,
se o teu corpo fosse meu
dançava, dançávamos. Ou dançaríamos.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

a hora a que o sol nasceu

acordar
e ser o ar que dança entre as tuas pestanas,
e ver nos teus lençóis a pureza das manhãs de inverno,

acordar
e ter a chuva nas minhas mãos, dar-ta,
intacta,
para lavares a cara.

acordar
e sermos o dia seguinte
e estarmos ainda juntos,

como se o tempo fosse tão infinito
quanto o amor.

domingo, 15 de novembro de 2009

Piscina de 25 metros

Somos feitos da matéria dos sonhos.
Boiamos.
Às vezes.
Também vamos ao fundo.
Fazemos bolhinhas.
De sabão, da infância
ou das infâncias
ou dos sonhos de infâncias.
Fazemos amor.
Corpos com água.
Como água.
Como águas.
Como um rio.

Leva-me ao teu mar e deixa-me ficar sentada na areia e ver-te chegar, devagar. Outras vezes depressa. Outras vezes devagar. Outras vezes depressa. Mais devagar. Exactamente à velocidade com que respiro a paisagem do teu corpo suspenso na água.

Boiamos.
Às vezes.
Também vamos ao fundo.

Vou deitar-me ao teu pôr-do-sol. Fechar-te os olhos como nenúfares e ser água doce em ti.
Liquidez.
Água. 20º graus. 21º. 24º.
Ou serão horas,
ou será tempo,
ou serão graus,
ou será amor.
O que é a quantidade?
O que é a quantidade?
Matéria do tempo.
Do espaço.
Ocupação.
Invasão.
O que é a quantidade?
Absurdo.
Absurdo como água,
como rio,
como mares,
como fronteiras.
Absurdo.
Vou tentar dizer ao contrário.
Não consigo.
Amor em Roma.

sábado, 7 de novembro de 2009

Como é que nos tocamos?

Nada tenho para te dar,

Nem palavras coloridas para verter no teu silêncio,

Nem o peso dos gestos certos

ou o simples aconchego do olhar.

Nada tenho para te dar,

Possuo apenas o quotidiano dos dias mentais e o vazio dos corpos nas cidades.

- Estou a procura de casa, de uma casa.

- Eu moro a um grito de mim e nem sempre sei chamar-me.

Por isso, devia pedir-te desculpas, às vezes, eu sei, mas nada tenho para te dar,

Repito,

A não ser a melancolia deste amor que me faz sorrir-te de manhã e gritar-te às vezes a meio da tarde: não será talvez isto o amor?

- A inconstância de fazermos viagens oblíquas entre dois pronomes que matematicamente nunca serão um.

- Já pensaste alguma vez que nós é um pronome pequeno demais para cabermos lá eu e tu?

- As letras não se dividem ao meio,

- e eu não posso dar-te metade de mim porque seria demais e se me der inteira,

- ficas sem casa.

- És maior do que eu: perder-me-ia.

- As casas devem ter exactamente do nosso tamanho, porque os lugares vazios são perigosos.

Medimos 1,77. Talvez tenhamos o tamanho certo para nos amarmos eternamente mas eu não sei. Tenho medo.

- Tenho medo, sabes?

Não é do amor, é da certeza do tamanho.

- Podemos ver filmes, se quiseres.

- Tenho medo de me ver nos teus olhos.