sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
deambu-lar.
a viver dentro de mim e eu nem sei bem onde.
às vezes ela usa as mesmas palavras muitas vezes,
repete repete repete.
como se os poemas fossem canções que embalam,
como se os versos fossem ondas e a nossa casa estivesse
quase dentro do mar.
somos tão cíclicos quanto a vida.
não. espirálicos, eu não sei dizer em espiral -
era essa a ideia.
olha, quase como se fosses música, olha
é isto o que sinto continuamente continuamente
e como espiral cresce cresce e aumenta, aumenta tanto.
olha, olha agora porque eu tenho medo de passares tempo
demais a olhar para mim e que repares
pausa para eventual respiração
como eu gosto de ti precocemente, antes sequer do amanhecer.
gosto de ti, ?. é anterior ao nome. gostar de ti antes de saber dar-te
um nome é. bolas. poético? ouve:
Enquanto o teu cigarro arde lenta
e( )ternamente, eu desejo que os
meus lábios sejam
a última morada
das tuas palavras de amor.
A cumplicidade é
talvez saber, sem hesitar,
a textura do teu coração e o timbre exacto
com que me dizes
bom dia.
E embora eu não me recorde,
com exactidão,
da temperatura dos teus acordes,
Intimamente sei-os de cor.
Sei que os oiço, fecho os olhos
enquanto pousas os teus em mim.
Tenho a certeza da tua forma de pegar na guitarra e sei
milimetricamente
a distância que nos separa.
A proximidade
é seres o cheiro do ar que respiro
e eu ter a forma do nosso abraço.
E a nossa casa,
meu amor,
somos nós.
ouve: faz tanto eco, é como se nunca chegasse
ao fim. ouve: faz eco, é como se chegasse ao fim.
ouve: eco, é como o fim. ouve: é como o fim. ouve: é
o fim. ouve: o fim. ouve-o.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
i'm giving it to someone special.
uma mensagem à hora certa, enquanto nasces comigo
e eu não quero dar nome,
os nomes são caixas que se fecham cedo demais.
i'm (really) giving it to someone special.
domingo, 20 de dezembro de 2009
intervalos de 5ª maior
dias certos e das certezas entre as horas das
manhãs da consciência
Haverá por certo um compasso a que bata o teu coração
e que possa eu tocar ou dizer
ou sentir com o mesmo ritmo e com
a mesma ternura com que te desenho
As mãos às minhas dadas e
fazemos laços em vez de
claves de sol
As notas tuas serão talvez
A tua voz a aquecer-me o corpo
como se entre nós o único mês fosse
Agosto e o sol não chegasse ao
fim nunca e juntos capazes
fossemos de desmentir ciências e provar a harmonia que
há em sermos feitos em diferentes
Escalas.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
desej-arte.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
4:14, aproximadamente
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Precoces
mas perco a sintaxe, do corpo. Talvez devesse saber melhor,
os lugares de mim. Percebes?
É como quando conheces bem Espanha mas nunca foste sei lá
ao porto. Ou nunca viste o sol nascer no alentejo.
Eu também nunca vi o sol nascer em ti. O reflexo do sol
nos teus olhos. O nascer nos teus olhos. Nunca reparei
quanto tempo demoras a abrir os olhos, de manhã. Nem sei
como, não sei quanto. Tempo. Olha, sabes, nem sei há quanto
tempo gosto de ti.
Não sei o amor. Acontece de manhã.
Eu não uso relógio. Quando é de manhã, eu não sei.
Eu acordo-te. Eu quero ver-te acordar.
domingo, 29 de novembro de 2009
Claves de Sol
- O coração, o teu o meu. Os pés, entre os pés. Passos curtos e longos.
- É como na vida, quase metáfora.
- Engraçado isto de entrar no tempo, talvez fora até.
- Entrares no meu tempo, eu no teu. No tempo.
- Quando pisas alguém, pedes desculpa?
- Quando chove, os sapatos escorregam.
- É natural pisarmo-nos ao princípio.
- Compassos diferentes..
- Não sei.
- Às vezes não conhecemos as músicas.
- Ensinas-me a ler pautas? Preciso de saber o dó em ti.
- Preciso de me afinar, como aos pianos.
domingo, 22 de novembro de 2009
a dificuldade do verbo
perder-me como se fosses uma cidade e fazer das tuas veias as ruas do meu sangue, e percorrer-te as estradas com a ponta da língua e desenhar-te mapas e caminhos e atalhos até estar cansada de te percorrer o corpo numa só respiração. encostar o meu ar à tua pele, encostar o meu ar ao teu corpo e ter os meus dedos gelados entre os teus. deixar pegadas na tua pele, deixar pegadas no teu corpo e ter as minhas pestanas entre as tuas. e o meu sorriso entre os teus sonhos e o meu sono entre os teus braços e o teu corpo dentro do meu e o meu coração dentro do teu e a minha vida no teu calendário e o teu chocolate na minha boca e o teu gelado no meu nariz e talvez quem sabe a tua mensagem no meu telemóvel a dizer “bom dia, amo-te”. e os natais juntos, o mesmo pinheiro, a mesma lareira, a minha botinha para ti, a tua para mim, talvez família, não sei, tenho medo. amanhã há-de ser de manhã, mesmo que não seja lá fora, amanhã há-de amanhecer dentro de nós ou em nós, tanto faz é indiferente – tudo é indiferente quando amanhecemos assim. assim como se tivéssemos sido feitos para acordar um no outro. para veres nascer o sol em mim e eu a noite em ti. não sei se tenho medo.
afinal, não tenho medo.
é amor.
espelhos
Bons, outros estragados.
Há já quase vinte anos que habito esta casa onde as paredes há muito deixaram de ser brancas.
1,77. Pele curiosamente branca.
Borbulhas, cicatrizes, arranhões e uma costura que é um sorriso. Outro na cara, quase tatuado.
Pêlos. Poros. Pele. Peles.
Pronto, medidas eu não sei porque é raro ver-me
ou apreciar-me, era mais correcto;
ou reparar em mim;
ou olhar para mim.
É raro – ao espelho.
Reparo nos defeitos
e nos defeitos
e nos defeitos
e nas imperfeições
e nas imprecisões
e queria muito achar-me bonita,
embora isso não seja, eu sei, importante mas é.
Dizer bom dia, Cátia.
Bom dia, Cátia!
Com ponto de exclamação porque me acho bonita.
Assim digo
Olá
para não gastar muitas letras.
Ninguém gasta letras com gente feia.
Falta-me a coragem de reparar em mim com a ternura de olhar os rios a anoitecerem entre dois mares. De reparar nos sinais, de conhecer os músculos e os espaços entre os dedos, onde o ar da manhã faz cócegas.
Há já mais de dezanove anos que adormeço neste corpo que ao final dos dias me cansa e ao amanhecer me é eternamente novo. Irremediavelmente novo.
Tropeço em mim.
Esqueço os olhos entre os cabelos.
A boca à frente das palavras,
e a língua a saber-me à poesia dos
Invernos à lareira que não tenho.
Há exactamente 19 anos e 5 meses e 20 dias que ocupo este mesmo lugar no mundo e, se ma pedirem, ainda não sei dizer a minha morada.
Se o meu corpo fosse teu,
se o meu corpo fosses tu
se o meu corpo fosse meu,
se o teu corpo fosse meu
dançava, dançávamos. Ou dançaríamos.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
a hora a que o sol nasceu
e ser o ar que dança entre as tuas pestanas,
e ver nos teus lençóis a pureza das manhãs de inverno,
acordar
e ter a chuva nas minhas mãos, dar-ta,
intacta,
para lavares a cara.
acordar
e sermos o dia seguinte
e estarmos ainda juntos,
como se o tempo fosse tão infinito
quanto o amor.
domingo, 15 de novembro de 2009
Piscina de 25 metros
Boiamos.
Às vezes.
Também vamos ao fundo.
Fazemos bolhinhas.
De sabão, da infância
ou das infâncias
ou dos sonhos de infâncias.
Fazemos amor.
Corpos com água.
Como água.
Como águas.
Como um rio.
Leva-me ao teu mar e deixa-me ficar sentada na areia e ver-te chegar, devagar. Outras vezes depressa. Outras vezes devagar. Outras vezes depressa. Mais devagar. Exactamente à velocidade com que respiro a paisagem do teu corpo suspenso na água.
Boiamos.
Às vezes.
Também vamos ao fundo.
Vou deitar-me ao teu pôr-do-sol. Fechar-te os olhos como nenúfares e ser água doce em ti.
Liquidez.
Água. 20º graus. 21º. 24º.
Ou serão horas,
ou será tempo,
ou serão graus,
ou será amor.
O que é a quantidade?
O que é a quantidade?
Matéria do tempo.
Do espaço.
Ocupação.
Invasão.
O que é a quantidade?
Absurdo.
Absurdo como água,
como rio,
como mares,
como fronteiras.
Absurdo.
Vou tentar dizer ao contrário.
Não consigo.
Amor em Roma.
sábado, 7 de novembro de 2009
Como é que nos tocamos?
Nada tenho para te dar,
Nem palavras coloridas para verter no teu silêncio,
Nem o peso dos gestos certos
ou o simples aconchego do olhar.
Possuo apenas o quotidiano dos dias mentais e o vazio dos corpos nas cidades.
- Eu moro a um grito de mim e nem sempre sei chamar-me.
Repito,
A não ser a melancolia deste amor que me faz sorrir-te de manhã e gritar-te às vezes a meio da tarde: não será talvez isto o amor?
- Já pensaste alguma vez que nós é um pronome pequeno demais para cabermos lá eu e tu?
- As letras não se dividem ao meio,
- e eu não posso dar-te metade de mim porque seria demais e se me der inteira,
- ficas sem casa.
- És maior do que eu: perder-me-ia.
- As casas devem ter exactamente do nosso tamanho, porque os lugares vazios são perigosos.
sábado, 31 de outubro de 2009
assim,
Dormimos juntos e não avançamos o calendário. Dormimos muitas vezes juntos no mesmo dia e é como se o tempo não passasse.
arrendamos um terraço para ver nascer o sol. Alugar só se diz para móveis. Arrendamos um terraço e eu arrendo o teu coração. Depois ponho a render a nossa paixão. Como nos bancos.