sábado, 7 de novembro de 2009

Como é que nos tocamos?

Nada tenho para te dar,

Nem palavras coloridas para verter no teu silêncio,

Nem o peso dos gestos certos

ou o simples aconchego do olhar.

Nada tenho para te dar,

Possuo apenas o quotidiano dos dias mentais e o vazio dos corpos nas cidades.

- Estou a procura de casa, de uma casa.

- Eu moro a um grito de mim e nem sempre sei chamar-me.

Por isso, devia pedir-te desculpas, às vezes, eu sei, mas nada tenho para te dar,

Repito,

A não ser a melancolia deste amor que me faz sorrir-te de manhã e gritar-te às vezes a meio da tarde: não será talvez isto o amor?

- A inconstância de fazermos viagens oblíquas entre dois pronomes que matematicamente nunca serão um.

- Já pensaste alguma vez que nós é um pronome pequeno demais para cabermos lá eu e tu?

- As letras não se dividem ao meio,

- e eu não posso dar-te metade de mim porque seria demais e se me der inteira,

- ficas sem casa.

- És maior do que eu: perder-me-ia.

- As casas devem ter exactamente do nosso tamanho, porque os lugares vazios são perigosos.

Medimos 1,77. Talvez tenhamos o tamanho certo para nos amarmos eternamente mas eu não sei. Tenho medo.

- Tenho medo, sabes?

Não é do amor, é da certeza do tamanho.

- Podemos ver filmes, se quiseres.

- Tenho medo de me ver nos teus olhos.

1 comentário:

  1. Lia despreocupadamente, quando tropeçou numa frase que o agitou. Mexia com ele à medida que as letras se desenhavam no ecrã [o futuro obriga a trocar palavras quentes como 'o papel' por outras frias 'o ecrã']: "- Eu moro a um grito de mim e nem sempre sei chamar-me." - 'Eishh, c'um caraças' - pensou e balbuciou sussurradamente o pequeno leitor deste blog.

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