domingo, 22 de novembro de 2009

espelhos

1,77. Pele, alguns ossos.
Bons, outros estragados.

Há já quase vinte anos que habito esta casa onde as paredes há muito deixaram de ser brancas.

1,77. Pele curiosamente branca.
Borbulhas, cicatrizes, arranhões e uma costura que é um sorriso. Outro na cara, quase tatuado.
Pêlos. Poros. Pele. Peles.
Pronto, medidas eu não sei porque é raro ver-me
ou apreciar-me, era mais correcto;
ou reparar em mim;
ou olhar para mim.
É raro – ao espelho.
Reparo nos defeitos
e nos defeitos
e nos defeitos
e nas imperfeições
e nas imprecisões
e queria muito achar-me bonita,
embora isso não seja, eu sei, importante mas é.
Dizer bom dia, Cátia.
Bom dia, Cátia!
Com ponto de exclamação porque me acho bonita.
Assim digo
Olá
para não gastar muitas letras.
Ninguém gasta letras com gente feia.
Falta-me a coragem de reparar em mim com a ternura de olhar os rios a anoitecerem entre dois mares. De reparar nos sinais, de conhecer os músculos e os espaços entre os dedos, onde o ar da manhã faz cócegas.

Há já mais de dezanove anos que adormeço neste corpo que ao final dos dias me cansa e ao amanhecer me é eternamente novo. Irremediavelmente novo.

Tropeço em mim.
Esqueço os olhos entre os cabelos.
A boca à frente das palavras,
e a língua a saber-me à poesia dos
Invernos à lareira que não tenho.

Há exactamente 19 anos e 5 meses e 20 dias que ocupo este mesmo lugar no mundo e, se ma pedirem, ainda não sei dizer a minha morada.

Se o meu corpo fosse teu,
se o meu corpo fosses tu
se o meu corpo fosse meu,
se o teu corpo fosse meu
dançava, dançávamos. Ou dançaríamos.

2 comentários:

  1. Há pessoas a quem o sorriso traz beleza.
    Há outras pessoas a quem as palavras acompanham a beleza...

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  2. É capaz de ser depois de te ler por um tempo que vou aprender a escrever bem. E a escrever feliz. É uma patologia. Ainda que feliz, não sei escrever coisas felizes e bonitas...

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